segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

COLMAR PEREIRA DUARTE

Colmar Pereira Duarte, nascido em 21 de maio de 1932, no interior do município de Uruguaiana, filho de Luiz Duarte Jr e Alice Pereira Duarte. Poeta, escritor, pesquisador e compositor. Tem três livros de poesias editados: Sesmaria dos Ventos, (1979), Cancha Reta (1986) e Cardo (1993) e dois inéditos, em preparo: Caraguatás e O Jardineiro Cego.
É autor de obras para balé, criadas para o balet de Brandsen da Argentina, como Curuzi Gil e Garibaldi e Anita, e de uma transposição para o balé da lenda da Salamanca do Jarau, apresentada em 1974 na 4ª edição da Califórnia da Canção Nativa e em temporada no Teatro Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre. Foi apresentada, também, como convidada especial, na Noite de Integração Americana, pelo mesmo grupo no Festival de Cosquin, na Argentina, em 1976. O balé da Salamanca do Jarau é considerado a primeira co-produção brasileiro-Argentina para o teatro.
Criou uma peça para teatro chamada Fogões do Rio Grande, apresentada na primeira Festa Nacional da Lã de Uruguaiana.
É autor de várias letras de canções gravadas e de outras tantas inéditas. É fundador do Grupo de Artes Nativas Marupiáras, com vários prêmios na primeira Califórnia, inclusive com a Calhandra de Ouro (prêmio máximo do festival).
Em Uruguaiana, foi Patrão do CTG Sinuelo do Pago, do qual é Benemérito, presidente do Conselho de Cultura do município, é membro do Instituto Histórico e Geográfico. É um dos poetas mais requisitados como jurado de concursos de música e poesia, possui diversos trabalhos de pesquisa sobre temas do Rio Grande do Sul, muitos já publicados em jornais e revistas e outros inéditos.
Organizou o Museu Crioulo do município de Uruguaiana. Obteve junto a Glaucus Saraiva o acervo do Museu Piá, único em seu gênero, que destinou ao CTG Sinuelo do Pago e que hoje valoriza seu patrimônio.
Entre os principais prêmios recebidos estão: Primeiro prêmio de Folclore – 1970, Calhandra de Ouro da Califórnia – 1970, Primeiro Prêmio de Poesia – 1980, Medalha de Ouro do Município – 1995, (todos em Uruguaiana), Primeiro Prêmio de Fotografia (Santa Maria) – 1970, Chasque de Ouro (Santana do Livramento – 1983, Troféu Bento Gonçalves (Triunfo) – 1992, Clave de Ouro como Personalidade do Nativismo na Década de 80 (Porto Alegre) 1992.
Na década de 80 participou de um projeto organizado pela Fundação Landel de Moura (FEPLAM), denominado Os Imortais do Rio Grande.
É idealizador da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul e um dos criadores. É de sua autoria o primeiro regulamento, a escolha do nome do festival e do troféu-símbolo a Calhandra de Ouro.

ÚLTIMO ATO
Colmar Duarte

A morte chegou de quieto,
com alpargatas farpudas
de tanto campear viventes.

O sol recém despontara
sobre os pastos serenados
daquele final de agosto.

Mateando, de frente à porta,
ia pensando recuerdos
por não ter com quem prosear.

A vida é um rio de esperanças
que o tempo enche de remansos
onde nadam as lembranças
quando não se sonha mais.

Estava assim distraído
quando ela tocou o seu ombro.

Quis levantar
mas tombou, soltando a cuia da mão.
A cuia rolou pra longe
deixando um rastro e um som...
A morte o deixou caído;
Quebrou a cuia do mate,
sofrenou seu coração.

Quando alguém chegou à porta
que emoldurava o silêncio
daquele quarto vazio,
achou o seu corpo de borco,
com o rosto contra o chão;
o chão - um tronco de angico,
ele - a casca de cigarra
deixada na mutação.

Morreu tal como vivera
sem aviso, sem alarde.

Seu último confidente
foi essa cuia de mate da manhã,
do fim de tarde,
que rolou da mão sem vida
deixando um rastro e um som...

Morreu tal como quisera
por gostar da solidão;
Solteiro,
sem neto ou filho
pra chorar porque se foi.

No velório,
só o silêncio acompanhava o balanço
da chama das duas velas
no ritual do relembrar.

Companheiro como poucos
nunca negava o estrivo
ou deixava um compromisso
pra um passeio
ou um serviço.
Mate pronto,
água caliente
ou de pingo pelo freio,
mas não largava na frente
sempre esperava um convite.

E os silêncios que ele tinha
guardados de muito tempo?

Daqueles que só os amigos
podem juntos desfrutar.

Quando as brasas dos borralhos
se acomodam para dormir,
já não chiam as cambonas
nem há causos pra contar,
cada qual com seus recuerdos
confidenciando segredos
nesse dialeto casmurro
onde a palavra é demais.

Dizem que o homem já nasce
com o destino traçado.
Ninguém vive por acaso
mas cumprindo uma tarefa.
Como se fosse uma peça
de um tabuleiro invisível
onde um Deus joga xadrez!

Como um tonto personagem
de um circo de marionetes
numa cena repetida
pela vida,
tantas vezes,
preso a uma cruz de cordões.
E a mão que nos move os passos
estabelece os fracassos
e determina as conquistas.

Dos marionetes artistas
este foi coadjuvante.
Passou nos palcos da vida
sem despertar atenção.

Acho até que foi por isso
que nunca quis se casar.
Pra não subir nesse palco
como artista principal.

Mas a morte entrou em cena.

E nesse Ato Final
o pôs no meio da sala,
com luzes ao seu redor.

Todos rezaram por ele.
Todos tiraram o chapéu.
E o levaram do cenário
com as flores e o caixão.
Com todos os seus silêncios
guardados para nunca mais!

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